Boston
- Desirée Freitas
- 16 de jan.
- 3 min de leitura
Sento nos degraus em frente ao museu de arte de Harvard pra aproveitar a tarde fria de muito sol e fazer uma das coisas que mais gosto: nada (e ver a vida local acontecendo).
Duas senhoras conversam. Uma, sentada na mureta, próximo a mim, elogiava a scarf que a outra usava. Ela, sentada em uma cadeira motorizada, responde,

"It’s from Venice", e emenda falando de algumas viagens, "I love California, the beach... it's a much better life than ours in New York and here in Boston"
"You've done a lot of things", diz a senhora que a elogiava, com um sotaque estrangeiro.
"I was in travel writing", explica ela na cadeira. E eu ‘OPA!’, me dediquei a ouvir. Logo comecei a anotar.
Ela comeca a falar das filhas. Uma, Angela, como é inteligente, como se apaixonou por arte quando tinha 8 anos e entrou na Yale Press, "she's a Harvard gate"
A outra senhora pergunta se ela gostaria de ter as filhas por perto, e ela diz que não sabe.
"Not to take care of you, you're too independent", deixa claro.
“Should you know any place to eat? The museum cafeteria is not good. Too expensive and the food tastes bad”, rebate a viajante na cadeira, mudando de assunto, enquanto fuma um cigarro.
Riem de alguma coisa que não entendo.
"We can go around the corner”, sugere ela mesma, e conta, “I don't eat meat. Just seafood". Eu, já encantada, me vendo nela. E ela continua,
"My friends are all dying, I'm scared. Over the past years, I've lost many people I went to high school with… I don’t know what I'll do now with all of this time in my hands. I think I'll go back to school"
“It's so sunny today”, diz a estrangeira, que só a ouvia.
Eis que a escritora na cadeira responde, "why be in a museum when you can be outside!"
[Somehow they started talking about their backgrounds]
"The English people devasted all those countries and now they are complaining about those who got their citzenship and are living there. All of them (immigrants) should say, 'YOU get out of here'. But they (English) can do it all, they're white men", diz a senhora na cadeira.
"I've had a very hard life, you know", comenta a imigrante, falando da saída da sua família do país de origem.
"I'm sorry to hear it"
Alguns estudantes passam pela calçada.
"Lots of Asians here. Lots of peaceful Asians... All top colleges are full of Asians", a senhora na cadeira motorizada aponta... "Especially Chinese."
“How do they get here?”, questiona a senhora sentada na mureta.
"They're a communist country, see, the government pays for them to study",
diz a viajante.
"Wow, so they invest in education, hmmm", diz a estrangeira surpresa.
“I was invited to work in China. I lived in Tokyo, working for a book writing, and the government of China recruited some people, when [nome chinês que não entendi] was in power", diz a escritora viajante, e finaliza, “That was communism, not today.”
"Finishing your tobacco", nota a outra.
"I want it to burn slow, it's a 4 dollars tobacco", diz ela na cadeira. Eu quero rir, mas só sei admirar.
"Should we go for a walk? I know you're hungry...", propõe a senhora na cadeira.
A outra se levanta com dificuldade. E ouve,
"Lower back pain, sciatic pain, I know it all. Don't rush. I'll be faster than you, anyways"

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